Prefácio
Se eu fosse um crítico literário - algo que não se sabe bem o que é - diria pouco mais que o seguinte: lemos um destes sonetos sem assinatura nem referências outras e sabemos imediatamente que é um soneto de Félix Heleno. E acrescentaria: o que mais importa numa obra criativa (artística-poética) é a capacidade imagética/onírica, a inquietação, a diferença, o estilo peculiar, apaixonado, uma boa dose de ousadia, coragem e desejo de Eternidade; ou então, dissertaria por lugares-cumuns dizendo frases-feitas e pouco mais. Poderia perder-me em análises, comparações ou invocar linhas de força literárias/estílisticas, escolas, estéticas, temáticas, etc.. Nada disto me apetece e, de todo, não é importante. Assim, aquilo que tenho para dizer é muito pouco pois, perante a diversidade e grandeza desta obra, a nossa humildade nos diz que mais não é necessário até porque, fazendo nossas as palavras de Eduardo Lourenço, diremos: «Em sentido radical não há nada a dizer de um poema (e acrescentaria - de uma obra poética) pois é ele (ela) mesmo(a) o dizer supremo». Contudo, e porque Félix Heleno é também um amigo de longa data, alguma coisa haveria a dizer dessa amizade e do Homem, mas não é esse também o nosso propósito. Somos “companheiros” de aventuras literárias e afins e disso e com isso, queremos - suponho - tranquilizar a Vida e namorar a Eternidade prometida. Apesar de tudo, e de forma breve, quero dizer e relevar, que a obra em presença, nos dá conta do Homem de Cultura, do humanista, aquele que luta e resiste, em toda a sua dimensão, por um mundo novo, mais humano, mais justo e fraterno, aquele que sonha, aprende, vive e ensina - em todas as situações da Vida - o Mundo-Arte, o Mundo-divinizado. Também pelas páginas deste livro, descobrimos o Homem que legitimou já a capacidade e o desejo de nos provocar, que vive a ousadia, a coragem, que busca, em cada acto, em cada atitude, a diferença e a perfeição e que faz da sua poesia como que um grito-despertador que quer fazer-acordar, agitar e provocar as consciências adormecidas - embaladas em berços demasiado confortáveis tais como o banal, o efémero, o passageiro, a moda. E também porque a nossa visão do mundo, resulta sempre do conjunto das nossas vivências, inquietações, buscas e experiências várias, bem como da consciência de pouco saber e do desejo de o procurar, cito agora um velho professor e amigo (Antero Costa Urbano) a quem devo também a grande paixão que tenho pela Poesia: «A Poesia é a forma exotérica de uma visão do mundo. O poeta vê o mundo como vê, vê-o como mais ninguém o vê. Este mundo criado pelo poeta, recria em cada um dos outros um mundo que não é o mesmo do poeta, que também da criação primitiva se vai afastando. (...) O Poema é, no fim, um mundo-à-disposição, um mundo-despertador».
II.
Toda a nossa Vida é uma demanda do Graal - procuramos crescer interiormente e, para tal (uns melhor que outros), dialogamos com a Tradição e Cultura em toda a sua riqueza e dimensão. A “diferença” dos homens reside aí, na intensidade e entusiasmo (O Deus dentro de si) da busca, na vontade de se ultrapassar a si mesmo bem como na entrega de si, e, sobretudo, na humildade perante o Universo e as certezas sobre o mesmo. As páginas deste novo livro de Félix Heleno são belas, irradiam, provavelmente, a alegria e a música dos astros, mas também inquietação, sofrimento, algum desencanto perante este mundo, e daí a vontade de o mudar através da espiritualização das mentes, daí a contemplação, a espontânea atitude de quase-êxtase religioso, filosófico, poético; e porque assim é, não há, nem tinha que haver, explicação ou teorização alguma de nada nem de ninguém. O que perpassa em todo este livro, também ele um arauto de esperança e de profecia, é o reconhecimento, através da beleza do canto poético, de uma dádiva grandiosa que se chama Vida. Félix Heleno é homem igual a milhões de homens, mas único porque místico, e, como tal, nada explica mas muito compreende porque nele habita a Fé, o Amor, a Paixão, o Sublime, o legítimo e grandioso desejo de ser um-para-Deus.
III.
A tentação primeira perante a leitura desta obra tão peculiar, é a de nada lhe perguntar pois talvez nenhuma pergunta seja possível. E mais uma vez recorro a Eduardo Lourenço que, em poucas palavras, dá conta da nossa visão sobre esta poesia: «Compreender a poesia é olhá-la sem a tentação de lhe perguntar nada. É aceitar o núcleo de silêncio donde todas as formas se destacam. A obra vale pela densidade de silêncio que impõe. Por isso os poetas que imaginam dizer tudo são tão vãos como as estátuas gesticulantes».
IV.
A Poesia condensa toda a vida espiritual da humanidade e, por isso, é também uma fonte de conhecimento; ela não é só evasão, fuga, liberdade criadora, lugar intemporal de todas as possibilidades; a Poesia pode e deve subverter, sublimar, exaltar, profetizar, despertar... O poeta é um “trabalhador” da possibilidade, da diáspora, do ócio-divino, da paixão, da angústia que o atira ao Infinito, da revolta, da esperança... O “verso certo” resulta também de muitas folhas rasgadas com palavras-dor, do Silêncio-Absoluto, do indizível, da nostalgia do Futuro e do rumo que o poeta dá à constelação de sentidos da palavra-poética que advém de um processo interno semelhante ao Mistério da Trindade. Cada poema constitui um mundo a descobrir e cada descoberta não é mais do que um meio para uma nova descoberta. Torna-se necessário cada vez mais, um satisfatório estado de insatisfação. É esta concepção poética que em nosso entender se revela - a partir da leitura despreconceituada e descomprometida - na obra de Félix Heleno. Aquando do primeiro contacto com esta obra, vieram como que ao nosso encontro, ideias e autores que muito consideramos em termos literários e filosóficos: poemas e aforismos que valem mais que qualquer ensaio ou estudo. Porque assim aconteceu, e porque aquela velha e assustadora ideia de que tudo já se disse e escreveu, paira sempre no céu das nossas dúvidas e incertezas, diria ainda o seguinte a propósito do poeta, roubando um pedaço de poema à prémio Nobel Wislawa Szymborska para o cruzar com este verso de Félix Heleno: «Poesia/ - mas o que é isso a poesia./ Mais do que uma ténue resposta/ existe para esta questão./ E eu sei e não sei e agarro-me a isto/ como a um corrimão de salvação». E diz-nos o autor no poema “Ontem, hoje e amanhã”: «Porquê tanta ansiedade em tais momentos?/ Porquê tão sublime humanidade!?/ Porquê e em tão poucos mandamentos/ Se concebeu assim a liberdade?».
V.
E finalizo com a consciência de não ter começado... estamos perante um belo livro de sonetos em que perpassa religiosidade, exoterismo, filosofia, arte, misticismo. É um livro profético, um livro de iniciação porque há um mestre que experimentou e que agora partilha; e, sem querer ensinar, nos ensina. E do que este livro encerra, está carente esta humanidade fraca de tanto Ter e de pouco Ser. Trata-se de uma obra que bem poderia ser uma sinfonia à criação, uma tela do paraíso, um sorriso de anjo ou ainda um pássaro raro mensageiro do Além. Mas, tudo o que se diga ou registe é um pouco como a Teologia do Negativo, por mais que se diga a divindade, nunca se consegue dizer o que ela é; tudo o que é dito, fica sempre aquém. Há nesta aventura sublime e corajosa - por lugares da Fé e do Coração - uma infatigável procura que é também sofrimento e conquista pela palavra-poética, pela palavra-sagrada. «Se tu compreendes, as coisas são como são; se tu não compreendes, as coisas são como são» diz uma bela máxima budista. Felicito este poeta e amigo pela sua grande paixão pela Vida e por ter partilhado com todos nós, a sua “compreensão” pelo mistério da criação e da existência. Mas, e como nos ensinou o grande filósofo Wittgenstein, o mais importante e o mais interessante é tudo aquilo que não foi dito - aquilo que falta dizer!