Sábado, Fevereiro 03, 2007

O PROBLEMA DA GENTE SÃO AS PESSOAS! - (crónica, reflexão filosófica-social, poesia, conto, ilustração…) de Angelino Pereira - Editorial Minerva, 2004



UM TALVEZ PREFÁCIO

1. É uma honra, um prazer e um privilégio, tecer aqui algumas breves considerações sobre este livro tão interessante, tão necessário para esta caótica fase da humanidade e tão perturbador também… É urgente ler, reflectir e partilhar o que de bom este livro encerra!

2. Sobre o autor, diremos que tudo está por dizer de apologético ou não fosse ele um Homem de H grande, um verdadeiro humanista, um cidadão culto, preocupado com as pequenas-grandes “coisas” desta vida e deste nosso mundo tão carente de princípios e de valores bem como de verdadeiras e eficazes intervenções altruístas por quem de direito. O que seria deste nosso amado país sem homens como Angelino Pereira?!

3. É um livro assumidamente ecléctico que evoca um pouco do holismo da nossa vida e deste nosso conturbado mundo. Existe aqui reflexão filosófica, política, ética, religiosa, esotérica, social, estética… ideias originais, outras recriadas e rebuscadas, que surgem tansversal-mente ao conto, à poesia, à crónica, ao aforismo e até à ilustração do Miguel d’Hera e dos outros artistas plásticos que colaboram neste maravilhoso livro. É um livro-grito!, é também e sobretudo, um livro-esperança!. O Angelino é uma espécie de Sócrates moderno que «espicaça as consciências adormecidas no sono fácil das ideias-feitas»; ele não se limita apenas - como alguns - a por o dedo nas feridas e nas chagas sociais, tenta também cicatrizá-las o melhor possível, utilizando os mais preciosos - mas aparentemente esquecidos - remédios que os bons deuses inventaram para “cuidar” do Homem: o Amor, a Paz e a Justiça. Há que fazer urgentemente alguma coisa pois – por vezes e estupidamente – parece que o stock destes remédios essenciais à vida está no fim…

4. Vejo a já considerável actividade literária do escritor e amigo Angelino como uma luta permanente (eficaz ou não logo se verá!) em prol dos mais carenciados e dos mais desfavorecidos; aqueles que estão nas margens da vida, os esquecidos e alienados desta sociedade egoísta em que, infelizmente, nos encontramos. O Angelino é um homem-bom, cidadão e escritor preocupado e comprometido com o BEM da sociedade em que vive, que muito dá de si sem esperar a vã recompensa – para ele, tal atitude e opção de vida, traduz-se num acto de Amor constante pelos outros, orientado por uma nobre e sublime consciência ética, social e política, qual Kant da “Razão Prática” reencarnado. Há lá coisa mais altruísta e necessária do que “ensinar” pelo exemplo - ajudando a compreender e a resolver através da reflexão e da atitude prática e social do dia-a-dia – a incutir Amor, Paz e Justiça neste mundo(?!) A resposta é óbvia e, se mais razões não existissem, esta é tão forte que se basta a si mesmo.

5. Em termos estilísticos e formais, Angelino Pereira é igual a si próprio. Eis também aqui – na minha modesta idiossincrasia – uma mais-valia desta obra diferente e tão necessária: um escritor afirma-se e destaca-se por ser único e diferente, por ser ousado e perturbador, por ser polémico e romântico, por ser, neste caso concreto, um Homem cujo “partido” se chama APJ - AMOR, PAZ e JUSTIÇA.

Obrigado amigo Angelino por me ter perturbado!





Sexta-feira, Janeiro 12, 2007

MURMÚRIOS DE BÚZIO (poesia) de Cristina Sant’ Ana Costa, Editorial Minerva, 48 pp., 1999

TEXTO DA BADANA
por Ângelo Rodrigues

Ouvir «Murmúrios de Búzio» é tranquilizar a Vida.
Sabemos e sentimos que a Poesia é bem mais do que uma linguagem: energia-cósmica que impele a procura de nós; trilho do Graal, mística, amor, paixão, algo sagrado. No poema, as palavras não são palavras, são “outra coisa” que tem a força e o sentido de uma oração a todos os deuses.
Fruir estes poemas-oração, é como descansar serenamente - e por magia - sobre as águas do Mar num dia calmo e ao crepúsculo.
Os búzios são mensageiros do Olimpo. Quando criança, encostava um búzio ao ouvido e partilhava assim, da exultação, segredos e encantos dos deuses e do Mar. Sei agora quanto um búzio pode conter da alma-do-mundo e que basta um simples e doce gesto de criança para celebrar a Eternidade e a Beleza.
Cristina Sant’Ana Costa é uma deusa-aprendiz, guardiã do oráculo que fala assim: «Entra dentro de ti/ (...)/ Vislumbra o futuro,/ Olha bem em frente/ E rasga o caminho/ Da tua verdade».

Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

RESTOLHAR DE FRÁGUAS E FRAGAS (poesia) de Abílio Sampaio, Editorial Minerva, 72 pp., 2001

AVULSAS IMPRESSÕES

por Ângelo Rodrigues

1. É difícil “falar” da poesia de Abílio Sampaio por três razões: a primeira, por ser um grande amigo; a segunda, por ser um grande poeta e declamador – que podemos nós dizer a não ser enaltecer(!?); a terceira, tem a ver com o sentido absoluto e radical de uma obra poética – a inutilidade da opinião, da “crítica”, da “teorização”. Diz Eduardo Lourenço que, «em sentido radical não há nada a dizer de um poema pois é ele mesmo o dizer supremo».

2. Fruir a aventura poética que constitui o livro em presença, é um privilégio nosso. Dizer sobre e da Poesia, é sempre difícil, problemático, discutível, relativo; arriscamo-nos quase sempre à arrogância das frases-feitas e às previsibilidades comuns; contudo, uma “ideia diferenciada” nos fica do imenso prazer desta leitura, querendo a mesma significar que a atitude poética deste autor, aponta para a memória-do-futuro, para uma ilimitada e fascinante possibilidade de interrogação e de problematização. Podemos afirmar, com a legitimidade da nossa humildade perante o “há qualquer coisa”, que a poesia de Abílio Sampaio é também um filosofar espontâneo, despretensioso e autêntico, que reabilita o espanto do Homem perante o Grande Mistério da Vida e da Morte.

3. A partir deste livro, é impossível não afagar com doçura-áspera, as Fráguas e as Fragas da Natureza e dos homens.

4. Abílio Sampaio é irónico, corrosivo, sarcástico, doce, harmonioso, romântico, melodioso, desbravador, aventureiro, sonhador... lembra-me Nietzsche, compreende (e vive) o mundo como uma grandiosa obra de Arte. Este livro é a «Origem da Tragédia» em poesia.

5. Eis uma poesia dissolvente de razão e de paixão – privilégio dos artistas e poetas. Razão e Sentimento: o que os poetas procuram, está para além desta clássica e cansativa dicotomia.

6. A poesia de Abílio Sampaio é uma chave que tenta abrir a porta da Eternidade. Queremos ser imortais. A partir daqui, a confusão é total. Não há palavras, não chegam as palavras. O que podemos afirmar(!?) Valerá a pena dizer alguma coisa(?) Ou cremos ou não cremos (ou) não queremos.

7. (...) vitalidade, embriaguez, êxtase, diferença, mudança, encantamento; mas... não acreditem em mim. As almas têm fome. Comam este livro!

8. O poeta não poetiza apenas, é ele próprio o poema.

9. Estamos perante uma poesia que põe em prática a redenção do Homem pela reconciliação do Bem e do Mal.

10. Em Abílio Sampaio a máxima deixa de ser o «Conhece-te a ti mesmo» socrático e passa a ser o «Excede-te a ti mesmo» abiliano. A medida e a desmedida. Apolo e Dioniso. A Arte é poderosa! A Arte é, nesta vida, a preparação para o Eterno. O Abílio poderá entender isto como uma “treta”, mas sabemos que os poetas, os artistas, não têm, muitas vezes, consciência do alcance da sua obra. Ensinou-nos Nietzsche que o aborrecimento do mundo é superado pela vivência da Arte. O que seria de nós sem os poetas(!?) Abaixo o «Maria vai com as outras» e o angustiante marasmo do mundo!

11. Obrigado poeta(!), contigo, o mundo espiritualizou-se um pouco mais.

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

GRÃO DE PÓ EM SONHO ETERNO (poesia/sonetos) de Félix Heleno, Editorial Minerva, 176 pp., 1999


Prefácio
Se eu fosse um crítico literário - algo que não se sabe bem o que é - diria pouco mais que o seguinte: lemos um destes sonetos sem assinatura nem referências outras e sabemos imediatamente que é um soneto de Félix Heleno. E acrescentaria: o que mais importa numa obra criativa (artística-poética) é a capacidade imagética/onírica, a inquietação, a diferença, o estilo peculiar, apaixonado, uma boa dose de ousadia, coragem e desejo de Eternidade; ou então, dissertaria por lugares-cumuns dizendo frases-feitas e pouco mais. Poderia perder-me em análises, comparações ou invocar linhas de força literárias/estílisticas, escolas, estéticas, temáticas, etc.. Nada disto me apetece e, de todo, não é importante. Assim, aquilo que tenho para dizer é muito pouco pois, perante a diversidade e grandeza desta obra, a nossa humildade nos diz que mais não é necessário até porque, fazendo nossas as palavras de Eduardo Lourenço, diremos: «Em sentido radical não há nada a dizer de um poema (e acrescentaria - de uma obra poética) pois é ele (ela) mesmo(a) o dizer supremo». Contudo, e porque Félix Heleno é também um amigo de longa data, alguma coisa haveria a dizer dessa amizade e do Homem, mas não é esse também o nosso propósito. Somos “companheiros” de aventuras literárias e afins e disso e com isso, queremos - suponho - tranquilizar a Vida e namorar a Eternidade prometida. Apesar de tudo, e de forma breve, quero dizer e relevar, que a obra em presença, nos dá conta do Homem de Cultura, do humanista, aquele que luta e resiste, em toda a sua dimensão, por um mundo novo, mais humano, mais justo e fraterno, aquele que sonha, aprende, vive e ensina - em todas as situações da Vida - o Mundo-Arte, o Mundo-divinizado. Também pelas páginas deste livro, descobrimos o Homem que legitimou já a capacidade e o desejo de nos provocar, que vive a ousadia, a coragem, que busca, em cada acto, em cada atitude, a diferença e a perfeição e que faz da sua poesia como que um grito-despertador que quer fazer-acordar, agitar e provocar as consciências adormecidas - embaladas em berços demasiado confortáveis tais como o banal, o efémero, o passageiro, a moda. E também porque a nossa visão do mundo, resulta sempre do conjunto das nossas vivências, inquietações, buscas e experiências várias, bem como da consciência de pouco saber e do desejo de o procurar, cito agora um velho professor e amigo (Antero Costa Urbano) a quem devo também a grande paixão que tenho pela Poesia: «A Poesia é a forma exotérica de uma visão do mundo. O poeta vê o mundo como vê, vê-o como mais ninguém o vê. Este mundo criado pelo poeta, recria em cada um dos outros um mundo que não é o mesmo do poeta, que também da criação primitiva se vai afastando. (...) O Poema é, no fim, um mundo-à-disposição, um mundo-despertador».

II.
Toda a nossa Vida é uma demanda do Graal - procuramos crescer interiormente e, para tal (uns melhor que outros), dialogamos com a Tradição e Cultura em toda a sua riqueza e dimensão. A “diferença” dos homens reside aí, na intensidade e entusiasmo (O Deus dentro de si) da busca, na vontade de se ultrapassar a si mesmo bem como na entrega de si, e, sobretudo, na humildade perante o Universo e as certezas sobre o mesmo. As páginas deste novo livro de Félix Heleno são belas, irradiam, provavelmente, a alegria e a música dos astros, mas também inquietação, sofrimento, algum desencanto perante este mundo, e daí a vontade de o mudar através da espiritualização das mentes, daí a contemplação, a espontânea atitude de quase-êxtase religioso, filosófico, poético; e porque assim é, não há, nem tinha que haver, explicação ou teorização alguma de nada nem de ninguém. O que perpassa em todo este livro, também ele um arauto de esperança e de profecia, é o reconhecimento, através da beleza do canto poético, de uma dádiva grandiosa que se chama Vida. Félix Heleno é homem igual a milhões de homens, mas único porque místico, e, como tal, nada explica mas muito compreende porque nele habita a Fé, o Amor, a Paixão, o Sublime, o legítimo e grandioso desejo de ser um-para-Deus.

III.
A tentação primeira perante a leitura desta obra tão peculiar, é a de nada lhe perguntar pois talvez nenhuma pergunta seja possível. E mais uma vez recorro a Eduardo Lourenço que, em poucas palavras, dá conta da nossa visão sobre esta poesia: «Compreender a poesia é olhá-la sem a tentação de lhe perguntar nada. É aceitar o núcleo de silêncio donde todas as formas se destacam. A obra vale pela densidade de silêncio que impõe. Por isso os poetas que imaginam dizer tudo são tão vãos como as estátuas gesticulantes».

IV.
A Poesia condensa toda a vida espiritual da humanidade e, por isso, é também uma fonte de conhecimento; ela não é só evasão, fuga, liberdade criadora, lugar intemporal de todas as possibilidades; a Poesia pode e deve subverter, sublimar, exaltar, profetizar, despertar... O poeta é um “trabalhador” da possibilidade, da diáspora, do ócio-divino, da paixão, da angústia que o atira ao Infinito, da revolta, da esperança... O “verso certo” resulta também de muitas folhas rasgadas com palavras-dor, do Silêncio-Absoluto, do indizível, da nostalgia do Futuro e do rumo que o poeta dá à constelação de sentidos da palavra-poética que advém de um processo interno semelhante ao Mistério da Trindade. Cada poema constitui um mundo a descobrir e cada descoberta não é mais do que um meio para uma nova descoberta. Torna-se necessário cada vez mais, um satisfatório estado de insatisfação. É esta concepção poética que em nosso entender se revela - a partir da leitura despreconceituada e descomprometida - na obra de Félix Heleno. Aquando do primeiro contacto com esta obra, vieram como que ao nosso encontro, ideias e autores que muito consideramos em termos literários e filosóficos: poemas e aforismos que valem mais que qualquer ensaio ou estudo. Porque assim aconteceu, e porque aquela velha e assustadora ideia de que tudo já se disse e escreveu, paira sempre no céu das nossas dúvidas e incertezas, diria ainda o seguinte a propósito do poeta, roubando um pedaço de poema à prémio Nobel Wislawa Szymborska para o cruzar com este verso de Félix Heleno: «Poesia/ - mas o que é isso a poesia./ Mais do que uma ténue resposta/ existe para esta questão./ E eu sei e não sei e agarro-me a isto/ como a um corrimão de salvação». E diz-nos o autor no poema “Ontem, hoje e amanhã”: «Porquê tanta ansiedade em tais momentos?/ Porquê tão sublime humanidade!?/ Porquê e em tão poucos mandamentos/ Se concebeu assim a liberdade?».

V.
E finalizo com a consciência de não ter começado... estamos perante um belo livro de sonetos em que perpassa religiosidade, exoterismo, filosofia, arte, misticismo. É um livro profético, um livro de iniciação porque há um mestre que experimentou e que agora partilha; e, sem querer ensinar, nos ensina. E do que este livro encerra, está carente esta humanidade fraca de tanto Ter e de pouco Ser. Trata-se de uma obra que bem poderia ser uma sinfonia à criação, uma tela do paraíso, um sorriso de anjo ou ainda um pássaro raro mensageiro do Além. Mas, tudo o que se diga ou registe é um pouco como a Teologia do Negativo, por mais que se diga a divindade, nunca se consegue dizer o que ela é; tudo o que é dito, fica sempre aquém. Há nesta aventura sublime e corajosa - por lugares da Fé e do Coração - uma infatigável procura que é também sofrimento e conquista pela palavra-poética, pela palavra-sagrada. «Se tu compreendes, as coisas são como são; se tu não compreendes, as coisas são como são» diz uma bela máxima budista. Felicito este poeta e amigo pela sua grande paixão pela Vida e por ter partilhado com todos nós, a sua “compreensão” pelo mistério da criação e da existência. Mas, e como nos ensinou o grande filósofo Wittgenstein, o mais importante e o mais interessante é tudo aquilo que não foi dito - aquilo que falta dizer!

A HORA TRIANGULAR (poesia) de Tiago Marques, Editorial Minerva, 48 pp., 1998


Do Preâmbulo ao Triângulo
Apavora-nos a palavra FIM. Talvez seja por isso que recorremos também à Poesia.

II.
A Hora Triangular não deve ser um livro de Poesia! O autor de A Hora Triangular, que pode ser também um livro de (boa) Poesia, não é um poeta. Tiago Marques, poeta-de-Horas e adorador de Tempo, é, fundamentalmente, um aprendiz-de-Triângulo. Lamentavelmente, raras horas são triangulares; os poetas existem para “produzir” horas triangulares. Ser-triangular é uma grandiosa e transfigurada atitude que inclui a capacidade de provocar o Impossível, desejar o Infinito e celebrar em cada hora a Eternidade.

III.
A Hora Triangular é também um Uni-verso de místicas memórias por acontecer. «Abre-se a noite/ e/ tocam-se as/ linhas na/ velocidade da/ memória». Pelas “Horas-físicas” sabemos do deus Tempo, o único com cabelos brancos, daí que «o tecto do inferno (tenha) um/ cabelo branco no meio». É urgente em nossas vidas tão-comuns, haver Horas-Triangulares; eis a “proposta” desta aventura-poemática de Tiago Marques, um dignificador de Horas, um especial mensageiro do deus Tempo.

Bom Tempo com Horas felizes ou triangulares!

Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

A DÁDIVA ASTUCIOSA DOS DEUSES (poesia) de von Trina, Editorial Minerva, 64 pp., 2000

Veja aqui a referência no site da Editorial Minerva

AVULSAS IMPRESSÕES
por Ângelo Rodrigues

1.
Ao ler os poemas de Von Trina, sobretudo o capítulo sobre Timor, recordei aquele famoso e ultimo verso de um poema de António Gedeão: «Abaixo o mistério da poesia!» (poema Enquanto).

2.
von Trina tem uma sofisticada sensibilidade, percebendo, como ninguém, através da mais-valia das palavras amargas e doces, as fraquezas deste mundo, qual dádiva astuciosa dos deuses, e, hironica-mente, sarcastica-mente, retracta a decadência do homem do nosso tempo: a “cultura” do supérfluo, as mazelas do social, a arrogância, a sobranceria, a prepotência, a petulância, a estupidez (...).

3.
O poema é, para Von Trina, uma arma que espicaça as consciências algo adormecidas, uma arma para lutar contra as ideias-feitas, o tudo-pronto, o tudo-dado, o já-pensado, os marasmos quotidianos. A poesia de Von Trina é, assim, um campo de batalha, o inimigo é a excessiva normalidade do Homem: «Arrelia-me a prepotência / Incomoda-me a deferência / Arreporra para a normalidade».

4.
Estamos, com esta provocadora obra poética, no lado mais irreverente e nobre de toda e qualquer criação. O tom lírico-irónico é uma das marcas mais visíveis do fazer-literário deste autor.

5.
Poeta é aquele que resiste, que interroga, que luta, que se inquieta, que se revolta, que subverte o instituído, que diz NÃO(!). Eis um poeta-vidente, profeta, anunciador, avisador, inconformista-radical, idealístico, insatisfeito, crítico de ortodoxias e de algumas deferências, desbravador e caminheiro de sentidos, de diferenças, ousadias, adorador da Beleza deste mundo e dos outros (acessíveis aos criadores-artistas). von Trina é um humanista por excelência, um cidadão do mundo, um homem com alma-grande, proporcional ao seu peso, “bom garfo”, ou não fosse o Homem espírito e corpo (e o corpo de Von Trina não se alimenta apenas com uma sopinha de letras); ao ler os poemas de Von Trina, dá vontade de gritar (alto e a bom som) estes famosos versos da saudosa poetiza Natália Correia: «Ó subalimentados do sonho, a poesia é para se comer». Façam favor de comer a poesia de von Trina! Alguns farão bem a digestão, outros não.

SÓ O AMOR DE UM SER INTERESSANTE É BELO E EXCITANTE (poesia) de von Trina, Editorial Minerva, no prelo, 56 pp., 2007


AVULSAS IMPRESSÕES

1.
Esta perturbadora obra de von trina, parece-me ser bem mais do que um exercício almífico de exorcização e de catarsis-purificadora, qual psicanálise das errâncias divinas e profanas do feminino e afins: trata-se, também, de uma revelação de fetiches-vivos e excitantes, qualquer coisa que nos provoca e excita até às entranhas e que nos leva à masturbação e posterior orgasmo do espírito. Sintamos e partilhemos a dádiva das desvairadas e delirantes emoções e vivências do poeta despido, rebelde e errante: a luz, o calor, a paixão, a ardência, a excitação, a inquietude, a insatisfação, a coragem, a ousadia, a ternura da confissão sibilina, a doçura-amargura das palavras-anjo que entram para dentro de nós e nos convidam a voar pelo céu e pelo inferno dos nossos sonhos e desejos mais intimistas.
2.
O poeta é uma espécie de vampiro, um espírito prenhe de liberdade que se alimenta de deusas venturosas: «não sei da tua alma / livre e lá longe /alimentando venturosa / espíritos prenhes».
3.
Que este verso fique e contribua para a glória do poeta, para a diminuição da inquietude e para a frescura da nossa alma: «No mar fresco da interioridade».
4.
Navegaremos a nossa alma-barco por estes poemas para ver o bailado das sereias e para ouvir os seus doces murmúrios que nos encantam.

5.

Eis uma obra de Amor no feminino. Bendita sejas Mulher-Sereia-Deusa! Von trina é o enviado especial, o profeta das deusas. Creio que os poemas deste livro-oração querem dizer e dizem, o Indizível a Eternidade, o Amor, a Paixão, a Beleza, a Liberdade de se amar e de ser amado de uma maneira peculiar, original, diferente.

6.

A fruição destes “poemas-setas-ao-coração” dos amantes, traz-me à mente alguns versos do poema DA MULHER que escrevi em 1987 e que, parece-me, vão ao encontro e estabelecem uma espécie de cumplicidade com estes sublimes poemas de Von trina que renovam também, a doce e grandiosa “ideia/tese” da mátria: «(...) Tenho que sair deste poema-vaginal / Antes de “comer” em gula TODAS / As fantasias da carne / E as femininas tempestades de espírito // Não sei nada de MULHER / Beijarei a mama mais próxima do Infinito / E tentarei adormecer / Sobre o ventre quente da MULHER-DEUS.


Domingo, Janeiro 07, 2007

LAIVOS, SIMPLESMENTE LAIVOS, RAIANDO A TERRA PARA ALÉM DO MAR (poesia) de Cláudia Sousa Mira, Carlos Monteiro Editores, 92 pp., 2002


AVULSAS IMPRESSÕES
por
Ângelo Rodrigues


1.
Eis uma poetiza que escreve como quem respira e que jamais respirará bem sem a ajuda da Poesia. Eis um livro belo, provocador, irreverente, inquietante, transfigurador. Eis o terceiro livro da Cláudia porque sim.

Perguntam pela Eternidade,
O que não-sabem pela lei-da-Vida.
Raras, pobres e difíceis são as palavras
Que dizem o Grande-Enigma,
Uma terrível angústia gramatical
Embate na inquieta alma dos poetas.

Sabem que não podem viver sem Ela,
Importam divindades, encantos, mistérios, magias, oráculos...
Mantêm-se (agarrados à Poesia) na sofrível espera.
(A.R., Incomensurável, Editorial Minerva, 2000, p. 46)

2.
A mais valia de um poema é a sua fruição. Assim, creio que nada se pode e deve dizer destes inquietantes «Laivos simplesmente laivos – Raiando a terra para além do mar». Este livro será o dizer supremo até à próxima aventura poemática desta sempre jovem poetiza. Os anteriores livros da Cláudia não são mais do que uma escada que só dá para subir... A tentação primeira perante a leitura desta obra tão peculiar, é a de nada lhe perguntar pois talvez nenhuma pergunta seja possível. E recorro ao “grande” Eduardo Lourenço que, em poucas palavras, dá conta da nossa visão sobre esta poesia: «Compreender a poesia é olhá-la sem a tentação de lhe perguntar nada. É aceitar o núcleo de silêncio donde todas as formas se destacam. A obra vale pela densidade de silêncio que impõe. Por isso os poetas que imaginam dizer tudo são tão vãos como as estátuas gesticulantes».

3.
A Poesia condensa toda a vida espiritual da humanidade e, por isso, é também uma fonte de conhecimento; ela não é só evasão, fuga, liberdade criadora, lugar intemporal de todas as possibilidades; a Poesia pode e deve subverter, sublimar, exaltar, profetizar, despertar... O poeta é um “trabalhador” da possibilidade, da diáspora, do ócio-divino, da paixão, da angústia que o atira ao Infinito, da revolta, da esperança... «Que angústia designativa dos tormentos do Céu». O “verso certo” resulta também de muitas folhas rasgadas com palavras-dor, do Silêncio-Absoluto, do indizível, da nostalgia do Futuro e do rumo que o poeta dá à constelação de sentidos da palavra-poética que advém de um processo interno semelhante ao Mistério da Trindade. Cada poema constitui um mundo a descobrir e cada descoberta não é mais do que um meio para uma nova descoberta. Torna-se necessário cada vez mais, um satisfatório estado de insatisfação. É esta concepção poética que em nosso entender se revela - a partir da leitura despreconceituada e descomprometida – neste último livro da minha querida amiga Cláudia. Aquando do primeiro contacto com esta obra, vieram como que ao nosso encontro, ideias e autores que muito consideramos em termos literários e filosóficos: poemas e aforismos que valem mais que qualquer ensaio ou estudo. Porque assim aconteceu, e porque aquela velha e assustadora ideia de que tudo já se disse e escreveu, paira sempre no céu das nossas dúvidas e incertezas, diria ainda o seguinte roubando um pedaço de poema à prémio Nobel Wislawa Szymborska para o cruzar com este verso da Cláudia: «Poesia/ - mas o que é isso a poesia./ Mais do que uma ténue resposta/ existe para esta questão./ E eu sei e não sei e agarro-me a isto/ como a um corrimão de salvação». E diz-nos a Cláudia no poema “Que desassossego”: «E que desassossego é Ser-se Humano... /E que desassossego é não se poder mais...».

4.
Este livro é um vento-mágico que saiu do temporal da «Grande-Alma» para seduzir a Cláudia e a levar com ele até aos Mistérios, até à Possibilidade - Reino do Sagrado, o destino dos poetas. Há nesta aventura corajosa e sublime, por “lugares primordiais” - conhecidos e eleitos dos sonhadores e dos místicos - uma infatigável procura da «Palavra-Perdida» que é sofrimento e conquista pela palavra-poética e que constitui a password para a necessária e desejável iniciação em «demanda do Graal». É neste Uni-Verso que se compreende: «Cânticos de ânsias despropositadas /inauguram o Céu que os ouve». - («Se tu compreendes, as coisas são como são; se tu não compreendes, as coisas são como são» - máxima budista).

5.
É – não sendo só e apenas - um livro profético, um livro de iniciação... E do que este livro encerra, está carente esta humanidade fraca de tanto Ter e de pouco Ser. Trata-se de uma obra que bem poderia ser uma sinfonia à criação, uma tela do paraíso, um sorriso de anjo ou ainda um pássaro raro mensageiro do Além. Mas, tudo o que se diga ou registe é um pouco como a Teologia do Negativo, por mais que se diga a divindade, nunca se consegue dizer o que ela é; tudo o que é dito, fica sempre aquém. Felicito esta poetiza e amiga pela sua grande paixão pela Vida e por ter partilhado com todos nós, a sua “compreensão” pelo mistério da criação e da existência. Mas, e como nos ensinou o grande filósofo Wittgenstein, o mais importante e o mais interessante é tudo aquilo que não foi dito - aquilo que falta dizer!

Obrigado Cláudia por me teres - também - perturbado.



    site da autora: http://www.iranima.net/claudiamira.htm