Domingo, Janeiro 07, 2007

LAIVOS, SIMPLESMENTE LAIVOS, RAIANDO A TERRA PARA ALÉM DO MAR (poesia) de Cláudia Sousa Mira, Carlos Monteiro Editores, 92 pp., 2002


AVULSAS IMPRESSÕES
por
Ângelo Rodrigues


1.
Eis uma poetiza que escreve como quem respira e que jamais respirará bem sem a ajuda da Poesia. Eis um livro belo, provocador, irreverente, inquietante, transfigurador. Eis o terceiro livro da Cláudia porque sim.

Perguntam pela Eternidade,
O que não-sabem pela lei-da-Vida.
Raras, pobres e difíceis são as palavras
Que dizem o Grande-Enigma,
Uma terrível angústia gramatical
Embate na inquieta alma dos poetas.

Sabem que não podem viver sem Ela,
Importam divindades, encantos, mistérios, magias, oráculos...
Mantêm-se (agarrados à Poesia) na sofrível espera.
(A.R., Incomensurável, Editorial Minerva, 2000, p. 46)

2.
A mais valia de um poema é a sua fruição. Assim, creio que nada se pode e deve dizer destes inquietantes «Laivos simplesmente laivos – Raiando a terra para além do mar». Este livro será o dizer supremo até à próxima aventura poemática desta sempre jovem poetiza. Os anteriores livros da Cláudia não são mais do que uma escada que só dá para subir... A tentação primeira perante a leitura desta obra tão peculiar, é a de nada lhe perguntar pois talvez nenhuma pergunta seja possível. E recorro ao “grande” Eduardo Lourenço que, em poucas palavras, dá conta da nossa visão sobre esta poesia: «Compreender a poesia é olhá-la sem a tentação de lhe perguntar nada. É aceitar o núcleo de silêncio donde todas as formas se destacam. A obra vale pela densidade de silêncio que impõe. Por isso os poetas que imaginam dizer tudo são tão vãos como as estátuas gesticulantes».

3.
A Poesia condensa toda a vida espiritual da humanidade e, por isso, é também uma fonte de conhecimento; ela não é só evasão, fuga, liberdade criadora, lugar intemporal de todas as possibilidades; a Poesia pode e deve subverter, sublimar, exaltar, profetizar, despertar... O poeta é um “trabalhador” da possibilidade, da diáspora, do ócio-divino, da paixão, da angústia que o atira ao Infinito, da revolta, da esperança... «Que angústia designativa dos tormentos do Céu». O “verso certo” resulta também de muitas folhas rasgadas com palavras-dor, do Silêncio-Absoluto, do indizível, da nostalgia do Futuro e do rumo que o poeta dá à constelação de sentidos da palavra-poética que advém de um processo interno semelhante ao Mistério da Trindade. Cada poema constitui um mundo a descobrir e cada descoberta não é mais do que um meio para uma nova descoberta. Torna-se necessário cada vez mais, um satisfatório estado de insatisfação. É esta concepção poética que em nosso entender se revela - a partir da leitura despreconceituada e descomprometida – neste último livro da minha querida amiga Cláudia. Aquando do primeiro contacto com esta obra, vieram como que ao nosso encontro, ideias e autores que muito consideramos em termos literários e filosóficos: poemas e aforismos que valem mais que qualquer ensaio ou estudo. Porque assim aconteceu, e porque aquela velha e assustadora ideia de que tudo já se disse e escreveu, paira sempre no céu das nossas dúvidas e incertezas, diria ainda o seguinte roubando um pedaço de poema à prémio Nobel Wislawa Szymborska para o cruzar com este verso da Cláudia: «Poesia/ - mas o que é isso a poesia./ Mais do que uma ténue resposta/ existe para esta questão./ E eu sei e não sei e agarro-me a isto/ como a um corrimão de salvação». E diz-nos a Cláudia no poema “Que desassossego”: «E que desassossego é Ser-se Humano... /E que desassossego é não se poder mais...».

4.
Este livro é um vento-mágico que saiu do temporal da «Grande-Alma» para seduzir a Cláudia e a levar com ele até aos Mistérios, até à Possibilidade - Reino do Sagrado, o destino dos poetas. Há nesta aventura corajosa e sublime, por “lugares primordiais” - conhecidos e eleitos dos sonhadores e dos místicos - uma infatigável procura da «Palavra-Perdida» que é sofrimento e conquista pela palavra-poética e que constitui a password para a necessária e desejável iniciação em «demanda do Graal». É neste Uni-Verso que se compreende: «Cânticos de ânsias despropositadas /inauguram o Céu que os ouve». - («Se tu compreendes, as coisas são como são; se tu não compreendes, as coisas são como são» - máxima budista).

5.
É – não sendo só e apenas - um livro profético, um livro de iniciação... E do que este livro encerra, está carente esta humanidade fraca de tanto Ter e de pouco Ser. Trata-se de uma obra que bem poderia ser uma sinfonia à criação, uma tela do paraíso, um sorriso de anjo ou ainda um pássaro raro mensageiro do Além. Mas, tudo o que se diga ou registe é um pouco como a Teologia do Negativo, por mais que se diga a divindade, nunca se consegue dizer o que ela é; tudo o que é dito, fica sempre aquém. Felicito esta poetiza e amiga pela sua grande paixão pela Vida e por ter partilhado com todos nós, a sua “compreensão” pelo mistério da criação e da existência. Mas, e como nos ensinou o grande filósofo Wittgenstein, o mais importante e o mais interessante é tudo aquilo que não foi dito - aquilo que falta dizer!

Obrigado Cláudia por me teres - também - perturbado.



    site da autora: http://www.iranima.net/claudiamira.htm




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